
Posar a qüestió, (Fazer a pergunta), obra de 2001, que aborda a questão da tortura. A peça, em técnica mista, é uma das que fazem parte da exposição Esquartejada

Em sua primeira passagem profissional pelo Brasil, a artista catalã Maïs realiza em Fortaleza a exposição “Esquartejada”, no Museu de Arte Contemporânea do Dragão do Mar
Num primeiro momento, ao olhar as obras da artista catalã Marisa Jorba (Maïs), a estranheza é a mesma de quando se aprecia outros exemplos de arte contemporânea. O que significam? Qualquer um pode fazer? Isso é arte? O que ela quer dizer (sim, a indagação sobre o significado ecoa insistentemente)?
Embora considerada uma escultora, Maïs revela em sua trajetória um trabalho extremamente conceitual, que em nada lembra a iconicidade das esculturas tradicionais. Tendo principalmente o ferro, a madeira e o tecido como matérias-primas, suas obras situam-se no caminho entre peças acabadas e a efemeridade das instalações.
No entanto, um olhar mais demorado e atencioso ao conjunto de obras de Maïs revela uma linguagem coerente, metáforas impactantes e um conteúdo forte. É o que o público poderá conferir a partir de hoje, no Museu de Arte Contemporânea do Dragão do Mar, com a exposição Esquartejada, primeira de Maïs no Brasil.
A mostra traz cerca de 40 peças da artista, distribuídas entre três salas do Mac – entre elas uma instalação feita exclusivamente para a ocasião. Em uma síntese bem primária, pode-se dizer que muitas são tipos de caixas, inteiras ou desconstruídas, fechadas ou gradeadas, que abrigam tecidos, bonecos de pano e outros materiais.
“Esse é um ponto importante no universo de Maïs, ela trabalha com espécies de jaulas, que apreendem as pessoas, representadas por bonecos, por situações. Mas sempre há um ponto de fuga, seja por escadas ou outro elemento. É uma exposição positiva, ela vê saídas”, analisa o curador do Mac, José Guedes.
“É um trabalho muito conceitual, bastante inspirado por experiências pessoais, assim como acontece com outros artistas, a exemplo de Leonilson”, complementa Guedes.
Temática
A curadoria da exposição ficou a cargo do crítico de arte Roberto Galvão, que conheceu o trabalho de Maïs há cerca de três anos, na Espanha. “Ele ficou impressionado e trouxe a proposta de trazê-la, trouxe fotografias e um livro para conhecermos as obras. Fez o convite e ela aceitou”, recorda Guedes.
“É a primeira vez que ela expõe no Brasil. Na verdade, o Mac tem esse aspecto em sua trajetória. Vários artistas latino-americanos vêm primeiro aqui para depois exporem em outros lugares do Brasil”, ressalta.
O nome “Esquartejada” vem justamente da instalação elaborada exclusivamente para a exposição em Fortaleza. São corpos de mulheres – alguns faltando pedaços – cobertos por um tecido vermelho e rodeados por grades de ferro. “Essa obra foi pensada a partir da ideia das mulheres assassinadas, da violência de gênero. É uma sala grande, parece uma grande mancha de sangue. É impressionante”, analisa Maïs, que veio a Fortaleza para a montagem e a abertura da exposição.
“Sempre trabalhei a partir das vivências das mulheres, inclusive a violência, a tortura, os problemas matrimoniais, a solidariedade das raízes familiares”, explica Maïs. “Por exemplo, há uma obra na exposição que faz referência à burca (vestimenta usada por algumas mulheres muçulmanas). Há também uma escultura sobre uma mulher africana que queriam matar apedrejada”.
“Falo bastante como mulher diante do mundo. Na Espanha, por exemplo, em 2010 54 mulheres foram mortas por violência de gênero. É um tema universal”, esclarece a artista.
Trajetória
Em outra sala de “Esquartejada” estão peças que representam prédios e casas. “Há uma relação com os prédios de Fortaleza. No meu trabalho, edifícios são postos como prisões de alma. Mas sempre com escadas para liberdade”, avalia Maïs.
A artista nasceu em Barcelona, mas vive também entre Nova York e Paris. Já expôs na Alemanha, França, Suíça, Japão e Estados Unidos, além de seu país natal, Espanha. No texto de apresentação de “Esquartejada” e sobre o trabalho de Maïs, Roberto Galvão compara suas obras a “testemunhos poéticos de força inquebrantável que contém vida, sonhos ou pesadelos”.
“Na construção física do seu trabalho, Maïs recorre com muita sobriedade a linhas, planos e volumes com equilíbrio, ritmo, texturas, transparências e cor com uma elegância incomum. Plural, ela apropria-se de vários materiais, utilizando-se das cargas estéticas próprias de cada elemento: ferro, vidro, madeira, tecido. E, ao mesmo tempo, não desperdiça a força poética ou simbólica dos elementos: correntes, grades, pregos, lençóis e almofadas; e das próprias formas: caixas, casas”, analisa no texto o crítico de arte.
Sobre ser mulher em um campo no qual a atuação feminina é mais escassa, a escultura, Maïs acredita ser um aspecto comum a todos os campos de trabalho. “Penso que as mulheres têm mais dificuldades em todos os campos profissionais, há uma discriminação relevante. Por isso é surpreendente que, ao mesmo tempo em que acontece minha exposição, todos os outros ambientes do Mac abriguem trabalhos de artistas mulheres”, ressalta a catalã.